‘Sorry To Bother You’ e como seu humor ácido ataca a nossa sociedade atual

O filme lançado em 2018 deixa escancarada a necessidade de tratar assuntos sérios de forma satírica e insana.

Estabelecido num universo paralelo ao nosso, seu humor ácido ataca a nossa sociedade atual arquitetando temas como capitalismo, segregação social e a luta de classes — temas bastante corriqueiros no acervo acadêmico de Karl Marx e que são importantes até os dias de hoje. Sem contar o racismo que sempre está por ali, onde o roteiro deixa clara a necessidade de conscientizar as pessoas o quão absurda essa problemática pode ser.

O protagonista Cassius “Cash” Green é vivido por Lakeith Stanfield, e, logo de cara, podemos perceber a analogia sagaz do nome que remete à principal engrenagem do capitalismo: o dinheiro. Com o decorrer da trama, o personagem envolve com o trabalho de atendente, onde demonstra habilidade em fisgar a atenção dos clientes com a sua denominada “Voz branca”. Um artifício criticamente irônico criado pelos roteiristas com o sentido de formalizar a evidência de que os negros precisam se adequar ao mundo dos “brancos” aliado ao capitalismo selvagem.

Isso nutre um desejo em Cash de ascender economicamente ao mesmo tempo em que cria uma antítese entre os seus colegas de trabalho que planejam por em prática a luta de classes e o seu desejo de poder ganhar mais dinheiro sendo promovido num cargo superior (Power Caller). Assim que decide ser um Power Caller, a consequência é catastrófica e cria uma espiral de problemas que afetam a sua vida, fazendo-o se afastar de sua namorada, Detroit, protagonizada pela atriz em ascensão, Tessa Thompson.

A partir desse ponto, o longa fica cada vez mais insano, colocando o protagonista em situações de vulnerabilidade, tanto por um lado quanto por outro — o que o faz  se questionar sobre fazer ou não a coisa certa. Na reta final da trama, as coisas são surpreendentes ao ponto de surgir uma interrogação em cima da cabeça, justificado pela presença de mutações genéticas entre cavalos e seres humanos. Tudo resulta numa espécia mais forte e resistente ao trabalho, substituindo os seres humanos normais.

Além de ser maluco, ao mesmo tempo faz sentindo, pois é o que acontece com o capitalismo, as coisas sempre estarão girando em torno do lucro, da rapidez e da eficiência, e os meios para obter esses resultados podem vir de qualquer jeito. Ainda fazendo um paralelo à nossa realidade, que não é diferente, no passado, com a invenção das máquinas, a mão-de-obra humana foi se tornando cada vez mais substituível. Essa ideia é explicitada com as ações de Steve Lift (Armie Hammer) que está por trás da empresa que tem destaque na obra.

A direção é de um estreante no cinema, Boots Riley, que conduz o filme normalmente, sem muitos problemas. Assisti-lo é ter uma comédia com risadas garantidas, além das críticas sociais, que são a alma do projeto. É uma obra importante para o século em que vivemos, pois tem a capacidade de refrescar a memória das pessoas e fazê-las refletir sobre a nossa situação social e o que podemos fazer para mudar esses problemas coexistentes com os seres humanos que tanto os segregam.

É hora de nos conscientizarmos, o futuro está próximo. Confira o trailer abaixo.

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